O Papel do Analista de Negócio

Ultimamente tenho participado de alguns fóruns de discussão sobre o papel do Analista de Negócio. Confesso que acompanhar e participar dessas discussões tem sido um exercício bem interessante, porque traz o benefício de esclarecer o verdadeiro papel e o perfil do Analista de Negócio proposto pelo BABOK – Business Analysis Body of Knowledge.

Infelizmente essas discussões não chegam a todos. Devido a isso tomei a decisão de escrever alguns comentários sobre o assunto para ampliar um pouco mais o tema em questão.

A busca da definição do papel e do perfil do Analista de Negócio se faz necessária para que não haja mais anúncios de vagas ou oportunidade de trabalho em sites de realocação de recursos humanos solicitando Analista de Negócio, mas com o perfil de um Analista de Sistema, Arquiteto de Software ou até mesmo de Programador. Isso demonstra claramente o desconhecimento do papel e do perfil do Analista de Negócio.

Primeiramente vamos definir o que é Análise de Negócio. O BABOK oferece uma excelente resposta para essa pergunta: “É o conjunto de atividades e técnicas utilizadas para servir de ligação entre as partes interessadas, no intuito de compreender a estrutura, políticas e operações de uma organização e para recomendar soluções que permitam que a organização alcance suas metas”.

O termo “As partes interessadas” referencia toda e qualquer organização que tenha interesse em algum aspecto do negócio. Pode ser um conjunto de empresas que interagem entre si para executar um processo. Pode ser uma ou mais unidades organizacionais, áreas de negócio ou silos de negócio em uma única empresa, envolvendo ou não a área de Tecnologia da Informação (TI).

É válido salientar que a Análise de Negócio nem sempre necessitará envolver a Tecnologia da Informação na definição de uma solução de um problema de negócio, embora isso cada vez fique mais raro. A Análise de Negócio não é uma atividade pertencente à Tecnologia da Informação. É algo que pertence à administração da empresa. O Analista de Negócio é um profissional pertencente ao mundo dos negócios. Obviamente, poderá utilizar os recursos de TI para implementar soluções visando melhor atender as necessidades do negócio. Não é porque pode existir o envolvimento da área de TI na implementação de soluções, que faz da Análise de Negócio uma disciplina da TI. O mais correto seria dizer que a área de TI presta serviços ao negócio para implementar soluções.

A Análise de Negócio ocorre antes do projeto de implementação de uma solução. O processo ideal leva a um procedimento de elicitação e análise das necessidades do negócio para definir qual deverá ser a melhor forma de atender à essas necessidades. Em resumo, isso é Análise de Negócio. Somente depois de definir a melhor solução, é que um programa de projetos são definidos para a implementação da solução selecionada. A partir deste ponto o Analista de Negócio assume um papel de supervisão dos programas em execução, para garantir que as características (Features) definidas por ele estão sendo atendidas.

Devido ao fato de hoje em dia os negócios dependerem cada vez mais de tecnologia por causa dos seus enormes benefícios, levando ao ganho de produtividade e qualidade, é comum encontrar soluções que envolvam a tecnologia da informação. É por isso que é interessante que o Analista de Negócio detenha conhecimentos dos recursos oferecidos pela TI para definir soluções adequadas às necessidades do negócio. Obviamente, isso não quer dizer que o Analista de Negócio conheça TI em profundidade, como é cobrado nos sites de realocação de recursos humanos.

Tenho visto frequentemente uma comparação do Analista de Negócio com o antigo Analista de Organização & Métodos (O&M). Não tenho mais visto profissionais em O&M nas empresas, mas concordo com essa comparação. Complementando, entendo que o Analista de Negócio é uma evolução do Analista de O&M.

O perfil do Analista de Negócio envolve o seguinte:

  • Profundo conhecimento do negócio. Ou seja, ser um especialista no domínio do negócio. Conhecer o vocabulário, as soluções clássicas frequentemente usadas na indústria. Conhecer o comportamento padrão do negócio naquela indústria. Conhecer os padrões, modelos canônicos, normas, legislação existente na indústria na qual a empresa está inserida.
  • Dominar as atividades de gestão estratégica de negócios, planejamento estratégico, balanced Scorecard, cadeia de valar, business process management (BPM), gestão estratégica da informação, arquitetura corporativa de negócio, frameworks de boas práticas, tais como BABOK, CBOK, DMBOK, PMBOK e TOGAF.
  • Conhecer técnicas de elicitação de necessidades dos negócios, e decompô-las em requerimentos descritos do ponto de vista dos executivos, ou seja, alto nível de abstração sem referenciar soluções de implementação.
  • Ter habilidade em elicitar regras de negócio, premissas e restrições políticas e sociais.
  • Ter visão ampla nos processos de negócio em operação e respectivos problemas que precisam ser resolvidos em busca da eficiência e eficácia.
  • Conhecer os fundamentos e ferramentas de BPM para propor melhorias dos processos e alinhá-los aos objetivos estratégicos da empresa.
  • Capacidade de gerenciamento do portfólio de processos de negócio diretamente relacionados aos objetivos estratégicos.
  • Ter aptidão para propor soluções customizadas para atender ás necessidades do negócio previstas no plano estratégico.
  • Conhecer técnicas de caracterização de soluções candidatas, definido Features, ou seja, definido características (requisitos do cliente) num elevado nível de abstração, descritas numa linguagem voltada para os executivos da empresa.
  • Saber identificar e analisar os riscos para cada solução candidata identificada.
  • Saber fazer análise de viabilidade financeira para cada solução idealizada e fundamentar, do ponto de vista financeiro e técnico, a tomada de decisão pela solução mais adequada.
  • Tem capacidade de abstração, para definir modelos e especificações descritas numa linguagem executiva.
  • Ter postura de executivo para poder transitar nas esferas estratégica, tática e operacional da empresa.
  • Ter capacidade de negociação para poder mediar conflitos entre diferentes executivos da empresa.
  • Ter habilidade fluente de síntese para sugerir soluções do ponto de vista de executivos.
  • Saber empacotar todas as decisões na forma de um documento executivo mostrando uma visão panorâmica dos problemas, soluções, necessidades e requerimentos para a definição de programas de projetos para a implementação das decisões tomadas.
  • Ter habilidade de coordenação e condução de workshops, envolvendo stakeholders de diferentes áreas de negócio.
  • Ter espírito de liderança e gerenciamento de projetos para atuar, se necessário, como gestor de programas para a implementação das soluções selecionadas.

Para concluir, gostaria de salientar que não cabe ao Analista de Negócio entrar nos detalhes de TI, porque é um assunto extremamente vasto e altamente especializado, que requer muita dedicação para manter-se atualizado. O Analista de Negócio não deve gastar seu tempo em aspectos relacionados a TI, pois existem muitas coisas para ele se envolver no negócio, visando obter o perfil necessário para realizar um bom trabalho em Análise de Negócio. É melhor deixar assuntos de TI para especialistas em Gestão de Requisitos de Software, Analise de Sistemas, Análise-Design, Web-Design, Arquitetura de Software, Arquitetura de TI, Arquitetura de Sistemas, etc.

Por isso, caros colegas, quando virem anúncios de emprego para Analistas de Negócio, especificando um perfil de Analista de Sistemas, Arquiteto de Software ou Programador, por favor, respondam ensinando ao solicitante do recurso qual é o verdadeiro perfil do Analista de Negócio.